Fora da Caixa

(Somos) Instantes - Quieta
Luciano Ribeiro

" I gotta be cool, relax, get hip and get on my track's…", Freddy Mercury canta na playlist.
Ela, sentada em frente ao notebook, lê tudo sem interesse.
Estava procurando o horário de um ônibus e, entre inúmeras pesquisas interligadas sem razão aparente, descobriu o valor que custa colocar energia solar em sua casa.
Inquieta…
Na sala, seu pai vê o jogo.
Na cozinha, seu irmão prepara o café…
Sua mãe?
Ao seu lado, conversando algo com ela.
Ela junta as palavras-chave da conversa para ,se for necessário, dar uma resposta.
Ela não quer conversar…
Ela não consegue conversar…
Só quer ficar quieta…
Sozinha…
Eles tentam…
Sua família sabe bem pelo que ela está passando e tentam…
Com um meio sorrido, ela muda frase…
Não, eles não tentam, eles conseguem…
Com os olhos cheios de lágrimas, ela se levanta e abraça sua mãe.
Na cozinha, pega uma torrada e rouba o suco do irmão.
Na sala, sorri para o pai e também lhe dá um abraço.
Voltando ao quarto, sua mãe ainda está lá…
"Eu tô aqui, filha…"
"Eu sei, eu sei…"
Mas, ela não quer conversar…
Na verdade.. 

Ela não consegue.

(Somos) Instantes - Quieta

Conto e Canção - Conselho
Luciano Ribeiro

Conto e Canção - Conselho


Sentada, Elisa olha o nada.
A casa vazia. As luzes apagadas.
"Que eu te encontro pela estrada..." Ela fala baixinho.
Olha o teto, como se procurasse por algo e só encontra sombras.
Ana partiu.
Deixou um simples bilhete e partiu. Que Elisa não leu.
Sem brigas, sem despedidas, simples e vazio fim.
Sorri ao pensar que o amor, também traz o vazio, o medo e a incerteza.
Mas, também sorri, ao pensar neste vendaval de não saber.
Ela, levanta e devagar caminha em direção ao violão, caminhando pelo apartamento vazio e escuro, canta.
Entre um sorriso, uma lágrima, um vazio, surge uma canção.


Conto e Canção - Conselho

Conto e Canção - 304
Luciano Ribeiro

Conto e Canção - 304

Quando o vídeo acabou, Carlos não conseguia parar de chorar.
No quarto escuro, a tela do notebook de seu filho iluminava o seu rosto.
"Eu não consigo entrar no quarto dele..."
A voz surgiu em suas costas.
Virou o corpo e parada na porta do quarto estava Júlia, sua esposa, com os braços cruzados, o rosto cansado e ainda com as roupas escuras.
"O que foi?"
Ela continuou.
Ele não conseguia falar, soluçava entre lágrimas.
Devagar, ela entrou e o abraçou pelas costas.
"Onde nós erramos?", ela sussurrou.
Sem responder, ele levantou da cadeira e fez um sinal para que ela se sentasse.
A arrumou, colocando-a de frente para o vídeo parado, mostrando o rosto do seu filho.
Ela, suspirou fundo, vendo a tela, só conseguia pensar na cena que vira no dia anterior. Seu filho no chão... Sem vida.
Quando, Carlos tocou o teclado, o vídeo começou...
"Não sei se alguém um dia verá isso, mas vou gravar assim mesmo. Esta é a primeira canção que escrevi..."

Conto e Canção - 304

Conto e Canção - Elefante
Luciano Ribeiro

Conto e Canção - Elefante


Andréia atravessou a cozinha, pegou uma cadeira e partiu em direção ao patio dos fundos.
Sua mãe, entretida em uma conversa com a apresentadora da televisão, nem percebeu ela passar.
Seu pai já havia saído.
Seus irmãos dormiam.
Chegou ao pequeno local onde sempre sentava e se ajeitou.
Tirou do bolso o walkman velho que ainda guardava e ,colocando os fones no ouvido, o ligou.
A cinco anos atrás, ela começou a escrever canções.
Fechava-se em seu quarto e ali ficava o dia todo, escrevendo, compondo e tocando violão.
Deixou tudo que uma adolescente dita normal poderia querer e só queria escrever.
Montou uma banda, mas não deu certo.
De seus pais, nunca ouviu nada, nenhum apoio ou nenhuma desaprovação.
Alguns meses atrás, resolveu que iria gravar uma música.
Em cinco anos, havia composto muitas canções, já havia organizado até a ordem de seu CD.
Uma canção,ela só queria gravar uma canção.
Fez alguns bicos, alguns amigos apoiaram seu projeto.
Em um jantar contou sua ideia, feliz...
No máximo ouviu um "Que legal."
Gravou...
Orgulhosa escutou mais de cem vezes.
Fez algumas cópias e deu de presente para quem apoiou seu pequeno projeto.
Atravessou a cidade, ficou o dia todo em frente a rádio que escutava e entregou para o radialista que escutava todas as manhãs.
Hoje, realizava a rotina de sempre.
Comendo uma bolacha de água e sal, alguns acordes conhecidos começam a tocar no velho walkman...
Sua música, na rádio...
Sorrindo, sozinha, olhando as nuvens que passavam, chorou feliz...

Conto e Canção - Elefante

Conto e Canção - Macaxêro
Luciano Ribeiro

Conto e Canção - Macaxêro



Terminou de cantar, abaixou o violão e levantou-se.
Devagar alcançou a janela, ele conseguira. Escrevera sua primeira canção.
O horizonte a sua frente era cinza, mas com belos tons do final de tarde.
Sua esposa o abraçou forte, entre soluços e lágrimas.
"E não é que você conseguiu...", ela tentava falar.
Com um sorriso, ele a beijou.
Lembrou que em um momento quase esquecido, disse aos seus pais que queria tocar em uma banda.
"Isso é coisa de vagabundo.", seu pai respondeu grosseiramente.
Deixara de lado aquele sonho, mas aprendeu que gostava de escrever.
Escondido, escrevia seus poemas.
Sabia o que seus pais diriam.
Escreveu e viveu.
Não se tornou doutor como todos queriam, mas viveu.
Quando conheceu Isabel, se apaixonou.
Um poema por dia e ela também se apaixonou.
Veio a vida, vieram os filhos e a banda foi sendo deixada ainda como um sonho.
"Mas, você nem sabe tocar violão." Isabel dizia a cada vez que ele falava de seu sonho.
"Acho que em seis meses eu consigo." Ele sempre respondia.
Passaram-se meses e anos.
Quando o médico, lhe disse que precisa lhe dar notícias não muito boas, ele simplesmente respondeu:
"Terei tempo de aprender violão?"

Conto e Canção - Macaxêro

Conto e Canção - O Boi e O Pardal
Luciano Ribeiro

Contos e Canções - O Boi e O Pardal

"Uma família sem tradições é uma casa sem paredes".
Rafael se pega pensando na frase que tanto ouviu.
Seus pais sempre contavam e repetiam as histórias de suas famílias e em algum momento a repetiam.
Nestes pequenos momentos, ele soube como era a cidade de Passos Verdes, de onde eles vieram.
Conheceu a origem de seus sobrenomes e como eram seus bisavós e avós.
Sorrindo, ele cantarola a canção que seus pais cantavam para ele e suas irmãs.
Lembra que quando aprendeu a tocar violão mostrou para sua mãe os acordes de "Stairway To Heaven" e ela sorrindo perguntou:
"Você consegue tocar O Boi e O Pardal?"
Meio sem graça, respondeu que ia tentar...
Durante meses, enganou eles, dizendo que não conseguia, até que um dia, no final ensolarado de um domingo, sua mãe pegou o violão, seu pai surgiu com uma gaita e tocaram aquela canção.
Hoje se sente bobo de até aquele momento não saber que eles sabiam tocar algum instrumento musical. E de ter tentado enganá-los.
Levantando-se do sofá, caminha em direção ao quarto.
Sua esposa faz o almoço, com sua pequena filha, agarrada nas suas pernas.
Passa por aquela cena com um sorriso...
Surge na sua mente, os últimos momentos com sua mãe, ele tocando a canção que vinha sendo cantada geração a geração.
No canto do quarto, em cima do guarda-roupas, o violão empoeirado.
A última vez que o usou, foi para mostrar à seu pai, algumas músicas que havia escrito. Coisas deixadas para trás,junto com a morte dele.
Toca o violão empoeirado e desafinado.
Devagar afina ele.
Volta ao sofá.
"Filha, vem cá."
Diz ele com um grande sorriso.
" Vou de cantar uma história."


Conto e Canção - O Boi e O Pardal